Celina Santos
Apesar de vivermos num regime dito democrático, onde os governos são responsáveis pelas grandes decisões que interferem nas nossas vidas, a realidade impõe questionamentos sobre a relação do Estado com o cidadão. Um deles: Por que precisamos pagar tão caro para ter saúde e educação de qualidade, se arcamos com a terceira maior carga tributária do mundo?
Não queremos um Estado paternalista, que nos suborne com eternas esmolas para adormecer nossa consciência política. Mas também não podemos admitir sustentar um Estado que se comporta como um pai ausente e não nos assegura o cumprimento de direitos básicos.
A saúde, por exemplo, é um dos pontos mais delicados dessa nebulosa relação. Depois de muita “discussão”, a Câmara dos Deputados aprovou a prorrogação da CPMF até 2011. Agora, só falta o Senado dar o seu aval para a decisão. A arrecadação do imposto, conforme garante o governo, é revertida para a Saúde Pública.
Recentemente, inclusive, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, anunciou o plano de, a partir do próximo ano, aumentar o pagamento dos procedimentos realizados pelo SUS. Mas, antes que os profissionais da saúde se alegrassem, ele avisou: “Se a CPMF não for prorrogada, esqueçam tudo que eu disse”.
Façamos um teste. Experimentemos encontrar na prática os resultados do discurso oficial. Humm! Aí começa a ruir o castelo das “verdades” que nos são vendidas. Esta semana, assistimos através de um “espetáculo” midiático centenas de pacientes sendo barrados nos hospitais e clínicas particulares de Salvador, que interromperam o atendimento aos usuários do SUS.
A greve, que só terminou na quinta-feira, se deu porque as unidades hospitalares privadas estavam insatisfeitas com os valores pagos pela Prefeitura da capital e também com a diminuição no teto de atendimentos pelo SUS. Para se ter uma idéia, antes da paralisação, a prefeitura pagava R$ 2,04 pelas consultas básicas. Com o acordo firmado para a retomada dos atendimentos, passará a pagar R$ 7,55.
E não precisamos ir longe para encontrar absurdos desse tipo. Aqui em Itabuna, recebi um telefonema informando que há dias uma amiga havia sido atropelada por uma moto. Socorrida pelo SAMU, ela foi levada para o Hospital de Base. Até então sem identificação, foi tratada como qualquer pessoa que não tem plano de saúde. Ficou horas esperando atendimento, perdendo sangue e, mesmo inconscientemente, lutando contra a morte.
Só quando a família foi acionada, porque o motoqueiro que atropelou teve a iniciativa de procurar um telefone na bolsa dela, é que a paciente começou a receber um tipo de tratamento diferente. Foi transferida para outro hospital, levada para a CTI, enfim, foram tomadas as devidas providências para que ela superasse as conseqüências de um traumatismo craniano.
Adivinha por que a mudança de hospital, a CTI, os cuidados adequados? Porque, junto com a família, chegou o cartão que provava um detalhe mágico naquele momento: minha amiga tinha plano de saúde.
Ora, notícias desse tipo não produzem outro sentimento além de indignação. Só tem saúde de qualidade, educação de qualidade quem pode pagar? Infelizmente, sim. A quem não tem o mínimo de recursos para usufruir de serviços privados só resta amargar a pecha de coitadinho. Coitadinho coisa nenhuma! O coitadinho também paga seus impostos na feira do mês, na conta de água, de luz e no salário que recebe com altos descontos. Isso, é claro, se não estiver desempregado.
E, enquanto ficamos aqui nos lamentando pelos direitos que não nos são garantidos, nossos “representantes” tomam decisões secretas e sigilosas que interferem diretamente nas nossas vidas. Que tipo de democracia é essa, se o povo só serve para digitar e confirmar o número do candidato de quatro em quatro anos, e depois recebe como contrapartida a omissão?
Com todo respeito ao Presidente Lula e às centenas de deputados e senadores eleitos por nós, porque não vemos a anarquia como solução para nossos problemas, mas uma coisa é inegável: torna-se cada vez mais complicado entender a razão de continuarmos sustentando um Estado que não nos sustenta.
Celina Santos é formada em comunicação social pela Uesc e pós-graduanda em jornalismo e mídia pela Facsul.
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No Hospital Regional, sua amiga seria atendida imediatamente. Urgencia e emergencia, e aquele que estava esperando, com uma verruga no sovaco, ficaria retado da vida e sairia por aí dizendo que o Regional está um caos.
ResponderExcluirZelão Aplaude ( de pé):
ResponderExcluirÊta moça "arretada sô"!
Bom demais da conta esse artigo. É o jornalismo regional recebendo sangue novo... e bom!
Baixem os impostos e aumentem as taxas. Imposto vai para finalidades não comprovadas. Taxa o contribuinte recebe a contraprestação na hora. Por que não pagar um valor simbólico, um real, por exemplo, pela "gotinha" e em contrapartida todos terem a vacina de hepatite e meningite , também por um real, ao invés de 140/170 reais nas clínicas? Essa falsa gratuitade, sustentada pelos trabalhadores assalariados, com imposto retido na fonte, é que não pode prosseguir. Alguém sempre paga pelo "grátis". E não são as grandes fortunas, sequer tributadas.
ResponderExcluirCelina,
ResponderExcluirNuma sexta feira, chuvosa, cinzenta, "13", o então Presidente do Brasil, Marechal Costa e Silva (representando despostas militares - o ano era 1968), baixou em cima do povo tupiniquim e de seu Congresso Nacional um tal de AI-5.
Fez-se nascer, com isso, uma geração de cegos/surdos/mudos (politicamente), perseguiram e mandaram matar universitários; destruiram DCE's por todo o Brasil (invadiram Campus e prenderam muitos), infriltaram, nas salas de aulas, militares travestidos de estudandes e expulsaram dos bancos escolares muita gente promissora e sabida.
Minha Geração, e todas as nascidas nos anos 40/50/60/70, foi amordaçada e ameaçada; muitos assassinados de diversos modos.
Em 1978 com o fim do AI-5 e o País caminhando a passos largos para a retomada civil do poder, voltamos a parir DCE's mais dinâmicos e politizados dentro das Faculdades e Universidades Brasileiras.
Este seu texto indica que estamos saindo da era do medo e deixando que nossos jovens coloquem suas cabeças, democráticamente, a funcionar ; Oxalá seus companheiros, os de sua geração, começem, mesmo que timidos, a exercitar o direito de expressão e saber; tal qual está agora fazendo (brilhantemente!).
Parabens!,... não pare!
Debelarina Silveira Badaró
Belinhabadar@yahoo.com.br