09 outubro 2006

Faltou inspiração

Cristovam Buarque*

"O primeiro debate presidencial do segundo turno foi concentrado em acusações mútuas, no lugar do debate sobre propostas para o futuro do Brasil. O observador menos atento pode achar que faltou estatura de estadista entre os candidatos, mas a verdadeira razão é que falta motivo para o debate sair da crítica e contra-crítica, porque PT e PSDB fazem parte de uma mesma proposta de rumo para o futuro do Brasil.

Ambos partidos têm a visão de que o problema do Brasil está apenas no gerenciamento eficiente e ético, daí as denúncias mútuas sobre corrupção, da maquina do Estado e da economia, daí as acusações mútuas sobre a taxa de crescimento. Não houve um debate sobre quais as causas do atraso brasileiro em relação a tantas outras nações, nem a causa para que tenhamos uma desigualdade tão grande dentro do Brasil. Os eleitores querem esclarecimentos sobre as denúncias mútuas relacionadas à corrupção, mas têm também o direito de ouvir qual o futuro que os candidatos oferecem para o Brasil: como combater a desigualdade interna e o atraso em relação ao exterior, já que o crescimento econômico mostrou seu fracasso como elemento distributivo ou de salto para sermos um país de fato desenvolvido.

Há momentos em que um país precisa eleger um presidente que apenas administre bem, com eficiência e ética, mas há outros em que o país precisa de um líder que reoriente o futuro do país, que inspire o povo em um novo rumo. O Brasil vive um destes momentos de necessidade de inspiração e reorientação. E não se trata da opção entre esquerda e direita, porque estes conceitos têm que ser redefinidos e adaptados ao presente, e porque neste aspecto não há diferença entre os dois partidos: nenhum é de esquerda e nenhum é de direita. Ambos têm a mesma concepção de futuro para o Brasil: o crescimento econômico para construir uma nação desenvolvida, com assistencialismo para diminuir o sofrimento e amortecer o descontentamento.

Felizmente temos um segundo turno para assistir a debates com a esperança de que nós eleitores vamos perceber diferença nas propostas de futuro apresentadas pelos candidatos. Se isto não acontecer, vamos ter que escolher com base em sutilezas entre os dois candidatos que tiveram a preferência de mais de 90% dos eleitores no primeiro turno. O que indica que os brasileiros, na sua quase totalidade, estão contentes com o rumo do Brasil, não querem mudanças, apenas ajustes na ética e na eficiência.

Os que votaram em outros candidatos procurando mudar o rumo do Brasil, vão ter que escolher com base em diferenças relacionadas à ética, à eficiência e ao tamanho dos projetos assistenciais. Sem poder escolher entre dois futuros diferentes para o povo e o País.

Felizmente, ontem foi apenas o primeiro debate, faltam ainda 20 dias de campanha, ainda há tempo para esperar avanços nas propostas dos dois candidatos."

*Cristovam Buarque foi candidato do PDT a presidente da República nas eleições deste ano.

Do site www.noblat.com.br

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