10 junho 2007

A CORRUPTIBILIDADE DO SER

Gustavo Atallah Haun

Muitas pessoas ainda se escandalizam com notícias sobre corrupção na terra em que aportou Cabral. Notadamente os meios de comunicação acham fôlego para se manterem vivos numa selvageria atroz por audiência e defesa de interesses. Mas a verdade é que a falta de escrúpulos já passou a ser inerente à cultura do brasileiro.

Desde que por aqui chegaram as caravelas, vivemos a égide da corrupção: quando os brancos (espertos e doutos) trocavam bugigangas sem valor, como espelhos, por pedras preciosas ou ouro com os autóctones (inocentes e indefesos). Assim foi construída a nação e a identidade brasileira, recebendo vantagens indevidas sobre terras, famílias, trabalhos, negócios, postos políticos, etc.

Antigamente se dizia que o povo daqui tinha um “jeitinho” especial para resolver os seus problemas. Traduzindo: uma amizade ali, um bom emprego aqui, um parente influente acolá, e tudo estava resolvido.

Ainda no passado, lembro uma vez que meu avô, Eliés Haun, mostrou-me uma charge do jornal A Tarde, datada do início do século XX. Era um jeca feioso do interior indo embora para a “capitá”, numa carroça, com um farnel do lado. Lá virou político e voltava para a sua cidade natal de terno e gravata, bonitão, montado num cavalo fogoso, cheio de dinheiro.

Dando um pulo no tempo, como querer mudar essa situação num país em que 95% da população divide a metade do bolo de riquezas produzidas pelo mesmo? Num país onde o dinheiro vai ser sempre bem-vindo, acima de qualquer coisa, pois é escasso e a miséria é abundante para a massa? Onde estão atracados os piores índices de distribuição de renda, crescimento, desenvolvimento humano e de educação do mundo? Podemos ver que no Brasil o homem é realmente o lobo do homem.

O tal “jeitinho”, assim como as vantagens descabidas, sempre irão perdurar enquanto formos miseráveis física e espiritualmente. Desde um pai faminto que corrompe uma filha, prostituindo-a, aos empresários sonegadores de impostos; desde o simples ato de furar fila aos políticos que recebem propina, desviam verbas públicas, ganham presentes em prol de licitações e liberações de recursos do erário; desde o suborno ao policial rodoviário ao tráfico de influência ou às vendas de habeas corpus e sentenças do judiciário.

Mesmo assim, há casos em que quem corrompe, ou aceita ser corrompido, tem recursos financeiros, é de boa família, teve boa educação, estudando e se formando nos melhores cursos. Qual a justificativa para isso? Além do desvio de caráter, falta de ética e moralidade, a simples noção de que no Brasil a impunidade é uma marca registrada, também de que a corrupção é intrinsecamente cultural, não nos escapa. Sem falar no fato de que quem tem dinheiro sempre quer ter mais, numa interminável neurose de acumulação de bens.

O que dizer de um país em que um assassino incendiador do índio Galdino se torna um juiz federal, julgando-nos, como se houvesse moral e capacidade para tanto?

O ser humano ainda não aprendeu a viver, nem a respeitar o seu semelhante, muito menos a fazer ao outro o que quereria que o outro fizesse a si mesmo. O ser humano foge incansavelmente da máxima socrática do “conhece-te a ti mesmo”. Acredita que esta é a única vida, que ela é curta e que nem só de amor se vive. Ainda não despertou para a bandeira da caridade, da paz e da justiça. Fugindo a cada dia das suas origens, o Homem está indo ao encontro das facilidades mundanas, desterrando suas torpezas, suas imoralidades, seu caos interno.

Façamos, entretanto, a nossa parte, a parte que nos é devida como pessoas sensatas e crentes de um futuro mais digno. Começando por não fazer, nem aceitar, atos ilícitos. Veremos se não mudamos esse país através do exemplo. Já dizia Albert Schweitzer: "dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única."

Seremos chamados de loucos no primeiro momento, porém eternizaremos nossa história como os mentores de uma grande e verdadeira revolução.

Gustavo Atallah Haun é professor

Crônica publicada também na edição de final de semana do jornal Diário de Ilhéus

5 comentários:

Anônimo disse...

Em cada linha, em cada palavra do seu texto, Gustavo, era como se eu as visse saindo do teclado do meu computador. Muito obrigado por dizer tão bem dito. Abraço fraterno.

Anônimo disse...

Origado, Cristiano. Suas palavras são reconfortantes, para quem se julga sem leitores, como eu.

Gostaria apenas de fazer uma correção: o texto foi publicado na minha coluna semanal do Jornal Diário do Sul (toda quinta-feira), portanto esse foi do dia 07 de junho. E também no Jornal Diário de Ilhéus, de 09 a 10 de junho, neste final de semana.

Gustavo A. Haun

Anônimo disse...

Às vezes tenho a impressão (será apenas isso?) de que o Brasil é uma máquina cujo fabricante trocou peças e engrenagens de lugar. E bagunçou tudo de tal forma, que é difícil achar um jeito de consertar. Há por certo uma engenhosa conspiração que utiliza, entre outras artimanhas diabólicas, a de manter o povo na pobreza e, assim, fazer com que ele seja alvo fácil para corruptos e corruptores. Afinal, como diz o texto, no Brasil, "o dinheiro vai ser sempre bem-vindo".
Parabéns pelo artigo!

Anônimo disse...

ricardo,
muito boa sua apreciação, é nisso que acredito como leitor da história desenbocando na realidade brasileira hoje... Veja, por exemplo, que os EUA nunca foram "América" (ou seja, do continente americano!) sempre foram uma extensão da Inglaterra e da sua sanha imperialista! nós nascemos errados: colonizados, roubados por portugueses, espanhois, franceses e ingleses... de lá para cá, pouca coisa mudou! abraço
Gustavo A. Haun

Toscko disse...

Haun,

Com certo atraso, a correção já está feita.

Mais uma vez, e agora publicamente, parabéns pelo excelente artigo!