Nos últimos anos, a Polícia Federal vem desenvolvendo uma série de operações espetaculares, prendendo centenas de pessoas, entre elas grandes empresários e políticos influentes.
Os nomes das operações são bastante sugestivos: Anaconda, Gafanhoto, Vampiro, Furacão, Navalha.
A impressão que se têm, ao ver gente graúda sendo algemada e colocada nos camburões é que finalmente nesse país está se dando um basta à impunidade, pondo fim à prática comum de que só quem vai para a cadeia é pobre, preto e prostituta.
Infelizmente, é só impressão mesmo.
Apesar das ações espetaculosas que fazem a delícia da mídia e inebriam o populacho, a impunidade permanece para os privilegiados de sempre.
Um levantamento feito pela revista Veja mostra que dos 245 presos nas operações realizadas pela Polícia Federal nos anos de 2003 e 2004, apenas 2 permanecem na cadeia. Isso mesmo: dois!
Os outros estão aí, livres, alguns até respondendo processo, mas ainda assim surfando nas ondas da impunidade.
Nada indica que a situação mudou nos últimos dois anos, ao contrário.
Por mais que gravações telefônicas revelem diálogos explícitos envolvendo pagamentos de propina, superfaturamento de obras e grandes negociatas; por mais que se exibam sinais inexplicáveis de enriquecimento súbito; por mais que auditorias mostrem desvios de recursos públicos; por mais escancarada que seja a corrupção.
Para quem pode pagar um bom advogado e/ou tem trânsito livre junto a algumas esferas do judiciário, há sempre uma brecha na lei, uma filigrana (o trocadilho, aqui, é tentador, mas arriscado...) que garante a liberação dos envolvidos.
Depois, é só apostar na clássica morosidade do sistema processual brasileiro, deixar as denúncias caírem no esquecimento, continuar gozando a vida e não raro continuar saqueando os cofres públicos.
A mãe desesperada que rouba uma lata de leite para alimentar o filho ou o bandidinho pé de chinelo que surrupia um aparelho de celular, correm o risco de mofar atrás das grades. Para eles, a Justiça é não apenas cega, como surda e muda.
A Polícia prende, a Justiça manda soltar.
O Ministério Público afasta, a Justiça manda voltar.
Tudo bem, é a lei!
Então, que se mude a lei. E que se criem mecanismos que evitem suas variadas interpretações, onde em casos idênticos, as decisões são completamente distintas.
O que não adianta, é transformar operações policiais em circo.
Infelizmente é isso o que vem ocorrendo.
Após as prisões em meio à pirotecnia, as imagens para os telejornais e as fotos que rendem manchetes de jornais, vem a libertação, quase sempre de forma discreta, na calada da noite.
Involuntariamente, somos feitos de idiotas, um bando de imbecis levados a acreditar que agora é diferente, que agora a lei é para todos.
Até descobrirmos que não é.
Um pouco menos de circo e um pouco mais de cadeia faria um imenso bem a esse país.
Até porque, fazer o papel de palhaço cansa.
Artigo publicado hoje no Diário do Sul
Policia prende justiça solta é um equivoco !!.Nós estamos num país de leigos no direito.Abrindo espaço para aberrações como esta proposição.A Policia no geral executa mandados judiciais para efetuar prisões.Então quem determina a prisão é a justiça.É tanto que policia civil é conhecida tambem como polícia judiciária.Quando o crime é flagrante a policia pode efetuar a prisão sem autorização judicial , assim como qualquer pessoa do povo pode dar voz de prisão no caso de flagrante delito.Agora quando a policia prende sem autorização judicial , fora do flagrante ou até mesmo quando prepara flagrante , arma situações.Ai sim,ss prisões se tronam ilegais.ESSA È A REGRA DE ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO.Parece que alguns querem um estado policial tipo na alemanha nazista de Hitler.!!
ResponderExcluirOutra coisa, mesmo quando o individuo é preso, e se constata que é primário , ou que o tipo de delito pode determinar que tal pessoa aguarde o processo em lberdade.assim é feito.Até porque vigora no país o princípio da presunção de inocência.
Zelão Para Daniel e Anônimo:
ResponderExcluirParabéns Daniel pela lucidez com que demonstra a sua indignação, que a de todos os brasileiros (ditos leigos)diante das "!aberações interpretativas jurídicas". Todos nós, leigos que somos, sentimos a cada soltura de "suspeitos criminosos" um cheiro fético de "milhõe$ de vi$ motivo$" diferentes aos dos "pobres coitados" que parmanecem presos indefinidamente, mesmo sem um julgamento fictício.
A ocê Anônimo, nossos agradecimentos pela aula jurídica que tenta explicar ao que nós parece inexplicável, até que nós mesmos ou alguém de nós; "pobre$ignorantes desprovido$ de justo$ motivo$ de cidadania", passemos a mofar por qualquer vil motivo, nas celas infectas das cadeias brasileiras.
Legal ou ilegalmente, a nossa idignação permanece.
O anônimo responde : Concordo com o texto de Daniel Thame. Apenas fiz uma observação de uma proposição errada que anda sendo veiculada pela mídia." a polícia prende e a justiça solta."
ResponderExcluirUm tempo atrás ouvir um jornalista ( não é Daniel ) dizer num programa de TV que nós devemos comparar o laudo que o juiz faz e o laudo que o delegado faz.Primeiro , nem juiz , nem delegado faz laudo.Ó delegado é responsável pelas informações do inquérito que vai servir de base para o MP.O inquérito não faz parte do processo judicial. Segue em apenso.serve de consulta. não determina o processo. Além do mais , tudo que é produzido no inquérito tem que ser ratificado na justiça. Ou seja , no processo há novos depoimentos , novas provas e pericias. Por isso sou a favor da necessidade de diploma pra jornalista. As aulas na faculdade : filosofia , sociologia , ética ..essa formação básica é necessária hoje na era da informação.