04 agosto 2007

Uma crítica à imprensa

Gustavo Atallah Haun

Tive o privilégio há duas ou três semanas de ministrar um mini-curso para alunos do PRUNE, em Itabuna, sobre o texto jornalístico. Foram noites agradáveis de debate envolvendo a imprensa, leitura de bons escritos sobre o assunto, discussão acerca dos meandros informativos, técnicas textuais e, principalmente, conversas críticas em torno da influência e do domínio dos meios de comunicação na vida pós-moderna, chamada por alguns de Idade Mídia.

Antes, porém, fui estudar um pouco a história dos meios de informação impressos, o que resultou em dois textos elucidativos publicados recentemente aqui no jornal. Um sobre a história da imprensa, geral, e o outro sobre a história da imprensa no Brasil. Durante essa pesquisa, pude ver o quanto os jornais, desde o seu nascimento, estavam ligados ao lado comercial, político e poderoso da sociedade.

Antigamente, lá no tempo da prensa tipográfica de Gutenberg, os jornais foram por muito tempo impressos apenas para os comerciantes e viajantes marítimos, para as pessoas ligadas a mercadorias e lucros, não tinham um caráter meramente informativo de relevância social, como hoje se pretende, embora esteja distante disso. Podemos ver que não mudou muito da Idade Média para cá, servindo sempre aos senhores fidalgos.

O patrocínio é hoje a alma da imprensa escrita, ela não sobrevive da banca de revista, das vendas avulsas ou das assinaturas. Os que tentaram, fecharam as suas portas, como os brilhantes O Pasquim, na sua última reedição, e a revista Bundas, entre tantos outros. Os maiores filões são, e serão ainda por muito tempo, as propagandas, o patrocínio político, a conveniência da hora com os ricos.

Tudo isso porque viver de escrever é cada dia mais difícil, para não dizer impossível. Viver de vender informações num país com 60% de analfabetos, mais difícil ainda. Pior se pensarmos na mídia eletrônica, que, parece, chegou para “abalar Bangu”, desde o rádio, a tv e agora a anárquica internet.

A disseminação dos blogs, dos sites jornalísticos oficiais e independentes ou de informações alternativas na net já é um fato consumado. Ainda não acabou de vez com o jornal impresso pelo fato de que muitas pessoas ainda não dominam a tecnologia computacional, estão excluídas da vida digitalizada, além de ser um bem relativamente caro, e uns poucos que mantém a tradição, preferindo ler os textos nas enormes e mal-cheirosas folhas amareladas dos informativos.

O jornalismo eletrônico não tem rosto, não tem compromisso, não tem vínculo, visto que é gratuito, livre e universal. Dessa forma, o sujeito deixa de ser passivo frente ao meio, para se tornar ativo e manter seu lugar próprio de divulgar e informar os leitores, do jeito que quiser, como desejar.

Quem acompanhou, por exemplo, a última eleição presidencial pela rede mundial de computadores pode ver a diferença de cobertura, muito mais rápida e completa: detonando ou defendendo os candidatos concorrentes, aproximando ou afastando os eleitores dos mesmos, mostrando uma realidade nua e crua do que aquela vista em telejornais e impressos de massa.

Mesmo assim, a pesquisa que fiz sobre o assunto me mostrou grandes nomes da literatura brasileira e universal que eram jornalistas, viviam desse ofício, numa época em que jornalismo era feito com alma, com leitura, com dribles criativos em ditaduras, com romantismo, muitos inclusive pagando um alto preço com a própria vida. Hoje querem fabricar redatores profissionais nos cursos de comunicação das universidades sucateadas, com a imposição de um reles diploma, como se a vida acadêmica preparasse realmente alguém para alguma coisa!

Não se faz mais jornalismo sentado numa roda boêmia, correndo atrás de fontes, buscando diversos focos da questão noticiada, lutando contra opressores e em torno de uma ideologia que contemple as multidões, salvo pouquíssimas mídias alternativas.

Agora, a fonte de informações é o press release das assessorias de comunicação das empresas e o sítio de busca google. A redação dos jornais a cada dia míngua mais, um ou dois espíritos sobreviventes ainda continuam na labuta, temendo serem despedidos. A leitura da realidade e dos fenômenos, assim como das ideologias, que acontecem no planeta é de quem pagar mais. E por aí vai.

Na verdade, o que falta na imprensa mundial é talento e vocação, para voltar os tempos áureos de boa escrita jornalística. Talento e vocação que fizeram Daniel Defoe ser considerado o primeiro e grande jornalista do mundo. E que também fizeram García Márquez ser o maior escritor vivo. Assim como fizeram Capote, Victor Hugo, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Voltaire, Nelson Rodrigues e infindáveis nomes ser o que são para nós.

Suor, entranhas, exaustão e vontade! Era assim que se fazia jornalismo, e é assim que tem que voltar a se fazer, para o bem da sensibilidade e da existência humana!

Gustavo Atallah Haun é professor. Texto publicado também nos jornais Diário do Sul e Diário de Ilhéus.

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro Gustavo,

Ler seus textos é sempre um prazer, mas eu não seria tão saudosista com relação ao "velho jornalismo". No passado, assim como hoje, havia a boa e a má imprensa, os bons e os maus profissionais.

Muito antes da internet e do google, Davi Nasser fazia matérias para a Revista Cruzeiro sem sair da redação. O cara tinha uma imaginação prodigiosa e inventava fatos e personagens como se fosse tudo verdade. Assis Chateubriand achacava a dar de pau, utilizando a mais poderosa rede de comunicação da época (os Diários Associados) para bater nos inimigos e em quem não se dispunha a contribuir com o império do cabra.

Concordo que hoje exista um excesso de academicismo em detrimento da vocação. Temos um Sindicato de Jornalistas mais preocupado em garantir uma reserva de mercado para recém-formados, sem questionar a qualidade dos cursos de jornalismo que pululam em institições privadas de procedência duvidosa.

Mas hoje também há bons profissionais, tal como os havia no passado. E os novos instrumentos oferecidos pela tecnologia se tornaram aliados importantes na democratização do acesso e da produção da informação.

A culpa do crime jamais será da arma, mas de quem a empunha.

Forte abraço e meu sincero desejo de que continue nos presentenando com artigos iluminados.
Tudo de bom!

Ricardo
ricardo.ribeiro10@gmail.com