07 agosto 2007

Cansou?

Daniel Thame

A mais recente pesquisa DataFolha, que mantém Lula com índices de aprovação nas alturas, demonstra que nem a crise aérea, que teve como ápice o acidente com o avião da TAM, provocou arranhões na popularidade do presidente.

Os analistas de plantão, que a cada crise vem prevendo o esfacelamento de Lula, ficam sem entender nada.

Afinal de contas, aquelas vaias na abertura dos Jogos Panamericanos não foram um indicio inequívoco de que acabou de vez a lula de mel entre Lula e a população?

E o acidente com o Airbus da TAM, “jogado” na cota do presidente mesmo com todos os indícios e posteriormente os dados técnicos apontando para falha do piloto e/ou do equipamento?

E o tal “Cansei”, movimento encabeçado pela elite reacionária de São Paulo, com seu “Fora Lula” e bordões de extrema-direita tipo “vagabundo”, “cachaceiro”, “ladrão”, apenas para ficarmos nos publicáveis?

Lula finalmente vai beijar a lona, apregoam os arautos do apocalipse. Não beija.

Ao contrário: apesar de todos os golpes, incluindo-se aí alguns golpes sujos, mantém-se firme no ringue, imune à pancadaria.

Desnorteados, os analistas atribuem a popularidade de Lula ao conformismo e ausência de indignação da maior parte dos brasileiros, aquela imensa parcela da população conhecida como “povo”.

Pois é justamente esse “povo”, manipulado durante décadas pela mídia, quem está satisfeito com a atuação do presidente. E, pelo jeito, devidamente vacinado contra a manipulação, a ponto de dar a devida importância ao exato tamanho das crises enfrentadas pelo governo.

O nível de emprego subiu, os salários tiveram aumento real, o acesso ao crédito e os bens de consumo aumentou, milhares de jovens têm acesso ao ensino superior e programas de transferência de renda (como o Bolsa Família) reduzem o vergonhoso quadro de exclusão social, que durante décadas foi uma das marcas desse país.

A vida é difícil, mas está melhor do que antes. É esse senso comum da esmagadora maioria dos brasileiros que explica a popularidade de Lula e não apenas carisma, que o presidente tem de sobra, mas é insuficiente para justificar, por si só, níveis de aprovação tão elevados.

A despeito de alguns casos graves de corrupção no governo, de problemas estruturais que emperram o desenvolvimento, das lambanças vez por outra cometidas por seus aliados e até da crise aérea que na verdade afeta uma ínfima parcela da população, o saldo do governo Lula é positivo especialmente naquilo que ele se propôs: melhorar a vida dos mais pobres, encurtar a distância estratosférica entre os poucos que tem quase tudo e os muitos que não tem quase nada.

Talvez seja isso que tanto incomode aqueles que, mesmo não tendo lá muitos motivos para reclamar, não dão trégua a Lula, devidamente respaldados pela mídia, sempre disposta a transformar qualquer ruído em barulho ensurdecedor quando se trata de tentar atingir o presidente. Caso típico desse movimento “Cansei” e seus manifestantes pingados engravatados com seus relógios rolex, carros blindados e outros apetrechos da elite exibicionista. É capaz de reunir mais gente em Miami do que qualquer cidade brasileira.

Pelo jeito, quem está cansado é o povo.

Não de Lula, mas daqueles que se julgam donos de todos os privilégios e se imaginam capazes de derrubar um presidente legitimamente eleito em dois pleitos consagradores, o segundo deles em meio aos ataques incessantes numa das maiores orquestrações da história recente desse país.

Cansado de ser feito de bobo, enfim!

Daniel Thame é jornalista

5 comentários:

Anônimo disse...

Zelão Pro Daniel:

Segue a Resposta:



Gilberto Dimenstein
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07/08/2007
Você não cansou?
da Folha Online

Não consegui entender direito o clima um tanto histérico, nutrido pelo governo, contra o movimento batizado de "Cansei", apontado como um núcleo conspiratório; outros viram ali uma reação ideológica conservadora como se o governo Lula não tivesse apoio entre setores da chamada "direita".

Alguns se incomodam com o fato de gente mais rica protestar como se todos, numa democracia, não tivessem o direito legítimo de protestar. É um direito não correr risco voando num avião.

Talvez, quem sabe, aquele movimento se converta em algo como maior consistência (inclusive conspiratória, com o olho na sucessão presidencial). Mas, por enquanto, o "Cansei" padece de um problema: o cansaço. Não propôs nada de concreto, rigorosamente, apenas a irritação --e, por isso, o cansaço é estéril.

Mas quem não cansou de ver um país com tantas possibilidades, com tantos recursos, sofrendo com tanta pobreza e violência? Quem não se cansou de ver tanto dinheiro público desperdiçado e sermos obrigados a pagar tanto imposto?

O que seria injusto é culpar apenas Lula, mas também seria injusto isentá-lo de parte da responsabilidade, pois seu governo vem investindo menos do que poderia em obras de infra-estrutura, torrando dinheiro com funcionalismo.

Não é possível ser um brasileiro com um mínimo de responsabilidade sem estar cansado da diferença entre o que somos e o que poderíamos ser, devido à crônica incompetência pública.

Gilberto Dimenstein,

A Porta do Reino disse...

Lí com atenção a opinião do Daniel Thame,mas concordo com a opinião de Reinaldo Azevedo,em seu blog,hoje.
" Jornalismo, partido e governo reacionários.

Lula demorou 10 meses para intervir minimamente na crise aérea — e só o fez sob a pressão de 199 cadáveres — porque ele próprio e o PT sempre estiveram convictos de que isso é “problema de rico”. Chama-se “rico” no Brasil quem consegue ganhar R$ 3.800... Brutos! Editorial da Folha de ontem evidencia que, em números absolutos, há mais “pobres” (5,9 milhões) andando de avião do que “ricos” (5,6 milhões). Os que ficam no meio-termo seriam 3,3 milhões. Assim, em números absolutos, há mais desafortunados padecendo nos aeroportos do que nababos. Mas, claro, quando se vê esse número no conjunto dos pobres brasileiros, a questão se torna, digamos, socialmente irrelevante.

A pesquisa Datafolha evidenciando que a popularidade de Lula continua na mesma deu ao PT a certeza que o partido tanto procurava. Se tudo continua igual, esse papo de aeroporto não tem mesmo importância. É... Vocês sabem que dou de ombros se me chamam de “direitista”. A primeira coisa que pergunto é: “Quem está falando?” A “minha” direita combateu o nazifascismo e o comunismo. E a “esquerda” deles? A “minha” direita se opôs a dois regimes homicidas e só aceita o poder vindo das urnas. E a “esquerda” deles? Mas recuso a pecha de “reacionário”. Esta não!

Reacionário é o PT. Eis o partido que reage a qualquer tentativa de mudar o Brasil. E, se possível, quer fazê-lo andar para trás. Ora, se os miseráveis não se interessam pela eficiência do setor aéreo porque já estão se acostumando a ser massacrados — e o PT entra apenas com suas bolsinhas para dar uma aliviada —, tem-se por óbvio que a indústria da miséria é a base real do poder petista. Enquanto campear a pobreza, e o estado assistencialista garantir alguns caraminguás, o poder do PT estará devidamente garantindo.

Mas é só no extremo da miséria que ele atua? Não! Também no extremo da riqueza. Vejam o lucro recorde obtido por Bradesco e Itaú. Eu sou contra lucro bancário??? Eu não!!! Sou favorável. Acho o “lucro” o princípio da civilização; é o correspondente econômico da “morte do pai” na psicanálise. Se os bancos passarem a operar com spread menor, então, vou ficar ainda mais feliz. O que rejeito é a suposição petista — e de parte do jornalismo — de que seria esta a elite que ajuda a vaiar Lula. Não é. Esta elite ajuda a manter Lula no poder. E isso é fato, não é chute. O próprio Apedeuta já disse e, excepcionalmente, tem razão: os ricos — os de verdade, não os com salário de R$ 3.800 — nunca ganharam tanto dinheiro como em seu governo. Ele mesmo admite de que deveria estar sendo vaiado é pelos pobres.

O jornalismo ideológico ou pistoleiro, de posse da pesquisa do Datafolha, encarregou-se de espalhar a versão, urdida na madraçal petista, de que protesto contra Lula é “coisa de rico”. Dito assim, dá-se um endosso ao governo até aqui, que passa a ter, então, na administração da pobreza, o seu maior ativo eleitoral, num ciclo perpetuador da brutal desigualdade que há no país.

É quando o jornalismo reacionário dá as mãos a um partido reacionário para defender um governo reacionário. E, com efeito, a direita não pode se conformar com isso, certo?


Por Reinaldo Azevedo |

Toscko disse...

Amigos, essa parte do blog é para comentários, não para 'clipagem', o popular ctrl+c, ctrl+v.

Estes serão os últimos comentários aceitos com 'clipagem' de tamanho 'absurdo'.

Vamos comentar, em vez de colar. Precisamos estimular a opinião própria.

A Porta do Reino disse...

toscko,
como me parece que o blog é seu, você faz as regras. Mas no caso presente, como Daniel é jornalista do PT,creio que vale a "clipagem" de jornalistas independentes.
Mas,manda quem pode, obedece quem tem juizo.

Gonzalez

Toscko disse...

Gonzalez,

geralmente os blogs permitem comentários com um limite de mil toques (ou caracteres). Nós não limitamos, desde que o comentário não seja "clipagem".

Agora, o blog está aberto a publicar artigos, seja qual for a tendência política. Então, produza o seu e mande pra gente. Publicaremos com o maior prazer, pois conhecemos a qualidade dos teus textos e do seu trabalho. Sinta-se à vontade, amigo!