08 abril 2008

E se não foi ele?

Por Daniel Thame
Do site Observatório da Imprensa


Alexandre Nardoni é um homem acabado.

Desde que foi acusado de ter jogado sua filha, Isabella Nardoni, de 5 anos, do 6º andar de um prédio num bairro de classe média em São Paulo, Alexandre recebeu o veredicto definitivo de "culpado". A madrasta, Ana Carolina, igualmente acusada pela morte da menina, vive situação idêntica.

Ambos alegam inocência, mas o circo armado pela mídia em torno do caso, com a inestimável contribuição da polícia, fez com que Alexandre e Ana Carolina fossem lançados à fogueira da inquisição.

As redes de televisão e emissoras de rádio fazem plantões na porta da delegacia e na entrada do prédio onde aconteceu a tragédia. Os jornais estampam manchetes retumbantes. Vizinhos, que não querem se identificar, dão declarações que incriminam ainda mais o casal.

Pelo menos até agora, não se produziu uma mísera prova concreta contra o pai e a madrasta de Isabella.

E precisa?

Numa carta emocionada, Alexandre reafirma a sua inocência e a da companheira e diz que "o sofrimento é muito grande, os culpados serão encontrados" e que "a menina era minha princesa, quando me dei conta do que havia ocorrido, meu mundo acabou".

E mais: "Não faria isso com ninguém, muito menos com minha filha. Amo Isabella incondicionalmente e prometi a ela, em frente ao seu caixão, que, enquanto vivo, não sossego enquanto não encontrar esse monstro. Tiraram a vida da minha princesa de uma maneira trágica e não me permitem sentir falta dela, pois me condenam por algo que não fiz."

Se Alexandre matou mesmo a filha e ainda conseguiu produzir uma peça de tamanho cinismo, trata-se de um facínora animalesco, que deve ser exemplarmente punido.

A inquisição midiática

Mas, e se não foi ele? Esta é a pergunta tentadora.

Trata-se de um crime bárbaro, brutal, que além de uma menina morta brutalmente pode estar produzindo outras vítimas, assassinadas em vida. É inacreditável como, em nome da sociedade-espetáculo, parte da mídia subverte a lógica de que até prova em contrário, todos são inocentes. Não hesita em condenar pessoas ainda na condição de suspeitas.

O célebre caso da Escola de Base, em São Paulo, é uma lição solenemente ignorada. O que são algumas vidas quando se luta pela maior audiência, pela maior tiragem?

O respeitável (?) público quer sangue? Então, que se atire carne humana aos leões.

Admita-se a hipótese, diante de tantas evidências (que ainda não se converteram em prova, repita-se) de que Alexandre e/ou Ana Carolina sejam culpados pela morte de Isabella.

Ambos estão com prisão preventiva decretada e até agora são os principais (ou melhor, os únicos) suspeitos. Ainda assim, nada elimina os excessos que foram e estão sendo cometidos para manter as labaredas acesas e prolongar ao máximo a superexposição da tragédia.

Alexandre termina sua carta com a frase "a verdade sempre prevalecerá".

Quando ela prevalecer, saberemos se essa é a história de um pai falsamente amoroso que escondia um monstro dentro de si.

Ou a história, tantas vezes repetida, de inocentes da santa inquisição midiática em que, quando a verdade aparece, só existem as cinzas das reputações e vidas lançadas ao vento.

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7 comentários:

Anônimo disse...

Assino embaixo, Daniel. A sociedade brasileira tem esse mal costume de precipitar as coisas, seja em que área for!
O pior é q depois de descobrir que alguém é inocente, não dão o mesmo espaço de quando atacavam e incriminavam...
GustavoA1

Comunicator disse...

Se não foi ele, ele é culpado por omissão.

Estavam a noite em supermercado, com a criança viva, logo apos a criança estava morta.

Ele esteve presente a tudo...

Antes que esqueça ele ERA PAI !!!

Omissão também é crime !!!

DENELISIO disse...

AMIGO DANIEL TEXTO MARAVILHOSO COMO SEMPRE VC É REALMENTE QUEM MELHOR ESCREVE NA REGIÃO, E A GLOBO NAS ELEIÇÕES ETC.

DO AMIGO DENELISIO

Zé Ruela disse...

Uma coisa q nao entendo... Se alguem lhe acusar de algo o que vce faz ?? No meu caso, eu gritaria, procuraria a imprenssa, faria o maior barulho para provar minha inocencia... com certeza a população saberia descrever uma atitude dessa caso ele viesse à midia pra explicar o q aocnteceu.. Mas se o cara nao diz nada, nao abre a boca.. Ai claro a culpa vai continuar sendo dada a ele...

Anônimo disse...

Martí confuso;

Esse Denelísio que teçeu lôas ao mosqueteiro Daniel Thame é o mesmo professor/diretor do LEM e assessor/segurança de Miralva?

Me recuso a admitir isso lendo esse texto.

Ele não sacrificaria a gramática assim.

Anônimo disse...

Ainda Martí;


Quanto ao texto do Daniel Thame, excelente, como sempre faz quando trata de temas nacionais.

Parabéns nobre mancebo.

Anônimo disse...

também concordo. e depois, se os dois são réus primários, não tem antecedentes criminais e têm endereço e ocupação licita, pq serem presos temporariamente? esse recurso deve ser usado a quem corre risco maior de fuga. já convivem com a dor da perda de uma filha e ainda com a incerteza atribuida sobre suas costas? apura-se e depois prende ou os afasta da suspeita, se for o caso.