Ao ar livre
"Deu no Jornal Nacional: meia dúzia de alunos subnutridos, pés descalços, sem carteiras, sentados em bancos rústicos ou no chão, e naturalmente sem merenda, tentavam meter nos miolos as primeiras letras. A professora humilde formava palavras num oscilante quadro-negro, porque pendurado por dois barbantes, ou cordas.
O nome da cidade não direi. Vou imitar don Miguel de Cervantes y Saavedra, que esqueceu de propósito o nome da localidade manchega de onde partiu encouraçado e de lança em cabido o engenhoso Don Quixote. Direi apenas que é uma pequena cidade do alto sertão da Bahia.Município pobre. O dinheiro que amealha dos impostos mal dá para pagar o prefeito, seu secretariado e os ve readores.
Para estes, não faltam os salários e subsídios.
Nada sobra para a construção de escolas de ensino básico, embora o município receba verbas de programas educacionais do governo federal. Interrogado a respeito, o secretário de Educação, barba grande e sobranceiro, admitiu os repasses, mas explicou que, em vez de construir escolas decentes, havia comprado equipamentos, incluindo um refrigerador.
Não disse onde instalou o refrigerador, nem se este fora abastecido. E, com a maior sem-cerimônia do planeta, negou a inexistência de escolas.
Pois o repórter não as tinha visto em atividade? Alunos não faltavam, todos ali aprendiam a soletrar, ler e garatujar o nome.
As escolas estavam, de fato, abertas, porque ao ar livre. Consistiam de uma lona – uma espécie de sujo toldo de circo mambembe – estendida sobre paus fincados em chão de terra. Os bancos não tinham encosto. Meninos e meninas pareciam ensimesmados.
Um retrato da situação do ensino no Brasil, apesar de custosos programas federais. Dinheiro há, recursos são repassados – mas falta acompanhamento.
O escritor e advogado Euclides Neto, de Ipiaú, quando secretário estadual da Reforma Agrária e Recursos Hídricos, no governo Waldir Pires (antes, portanto, de Lula e do MST), despachava pouco no gabinete. Passava a maior parte do expediente em viagens ao mais recôndito interior baiano. Via, fiscalizava, indagava, cobrava.
Simples, de formação sertaneja, embora erudito, muito ligado à gente pobre, cuja psicologia sabia de cor e salteado, Euclides José Teixeira Neto gostava de ouvir posseiros, homens e mulheres de mãos calejadas no cabo da enxada.
O atual secretário de Educação do Estado, Adeum Sauer, com quem tive a ventura de conviver no sul baiano, tem um belo pepino nas mãos. O cargo é mais espinhento do que mandacaru no pique da seca. Talvez lhe conviesse seguir o exemplo edificante de Euclides, que, sem ser matemático, era exato e reto, era uma equação de bom senso. Visite as escolas, professor Sauer.
Converse com professores. Verifique a destinação das verbas do ensino fundamental, porque o desempenho da Bahia em educação é uma lástima."
publicado no jornal A TARDE deste domingo
4 comentários:
Euclides era um homem do interior,
baiano, respeitado e, conhecia como poucos os nossos quintais e campos.
Querer que um "zinho" qualquer visite a nossa velha Bahia não vai adiantar...
ele já demonstrou que não gosta e não sabe lidar com LIDERES.
GO HOME " Gringo"
Miralva Montinho de Coisa, AtomaUM
e J Walker Wagner serão sempre lembrados como traidores da causa
dos EDUCADORES.
Mandar prender, mandar bater, perseguir, humilhar enfim CONFRONTAR é o caminho errado para a solução.
Reconhecer os erros com humildade,
DIALOGAR, CEDER levarão a uma solução com resultados positivos.
O PREJUIZO já está feito
"De todas as falhas da liderança,90% são falhas de CARATER"
Gostei deste blog. Postagens com muito interesse para ler e reflectir.
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