08 outubro 2006

Josias põe os pingos nos is

Artigo publicado pelo jornalista Josias de Souza, em seu BLOG:


Semelhanças que unem PT e PSDB


Lula e Alckmin terão neste domingo o primeiro tête-à-tête da eleição presidencial. Tentarão, obviamente, demarcar diferenças. E elas de fato existem. Porém, se o eleitor espremer os olhos, se observar os arredores das duas campanhas, perceberá que o que mais chama a atenção não é a dessemelhança entre os projetos de poder do petismo e do tucanato. O que salta aos olhos são as semelhanças.

Em passado recente, o eleitor tinha de fazer meia dúzia de raciocínios transcendentes para entender o universo da política. Tinha de decidir se o pragmatismo do PSDB era melhor do que o puritanismo do PT, se a social-democracia responderia às dúvidas que o socialismo foi incapaz de responder, se a ética da responsabilidade prevaleceria sobre a ética da convicção, se isso, se aquilo...

Hoje, a coisa é bem mais simples. Figuras como Karl Marx e Max Weber tornaram-se descartáveis. Falidas as ideologias, o templo da política consolidou-se como uma congregação de homens de bens. Vigora nas relações entre Executivo e Legislativo a lógica do negócio. Tudo está subordinado a ela, inclusive os escrúpulos.

Desgraçadamente, é no terreno da ética que PT e PSDB mais se aproximam. Para defender-se das perversões que infelicitam a sua gestão, Lula passou a semana colecionando depravações que turvaram a era FHC—da compra de votos da reeleição à entrada em cena Vampiros e Sanguessugas, ainda em 2001. Se for espicaçado no debate deste domingo, o presidente irá esgrimir o argumento de que a corrupção que grassa à sua volta é uma herança do tucanato.

A tática de Lula permite a qualquer criança, mesmo as que fedem a cueiro, entender o que outrora parecia obscuro no processo político: PT e PSDB, que representam a fina flor da política nacional, irmanaram-se na abjeção. O ex-PT já não pode sustentar a farsa de que está imune às tentações alheias.

Desgraçadamente, o desenrolar da campanha informa ao eleitor que não há no horizonte nenhuma evidência disponível de que as urnas produzirão um surto de probidade. O presidente eleito, seja ele quem for, estará submetido ao mesmo ambiente que propiciou a anarquização da política brasileira.

Num cenário conspurcado pela corrupção, o que se espera de um líder é que fixe padrões morais para os seus liderados. Diante das extravagantes alianças que começam a se formar ao redor de Lula e Alckmin, fica difícil enxergar em ambos capacidade para se firmar como lideranças éticas. A despeito das qualidades e da honestidade de cada um.

A atual campanha deveria representar, antes de tudo, um marco estético. Não é, porém, o que se verifica. Sob o pretexto de que a um candidato não é dado rejeitar apoios, Lula e Alckmin vão se acercando do que há de mais fisiológico e perverso no quadro partidário. Recompõe-se em torno dos dois o velho centrão de sempre. Amorfo, isotrópico, inefável.

Impossível antecipar a essa altura o nome do próximo presidente. Algo, porém, pode ser previsto com segurança: seja quem for, tão logo passe a euforia da vitória, o eleito estará enredado pela fisiologia de sempre. A mesma fisiologia que produziu mensalões, sanguessugas, vampiros, Sudans, Sudenes... Diz-se que não há outro modo de governar senão reunindo essa tropa, remunerada à base de privilégios, verbas e cargos. Até quando?

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